Audição e Linguagem

O impacto da audição no desenvolvimento da linguagem
Muito antes do nascimento, o feto já ouve os batimentos cardíacos e a voz da mãe, sendo esta forma de percepção uma fonte de prazer que perdura após o nascimento. Mais tarde, a criança experiencia o prazer de ouvir as suas primeiras produções sonoras, começa a distinguir a voz humana de outros sons, bem como diferentes propriedades vocais (vozes graves de vozes agudas), entre outras coisas.

A exposição a estímulos sonoros promove o desenvolvimento das competências auditivas, contribuindo para que a criança seja capaz de identificar vozes familiares, processar intenções comunicativas distintas (uma repreensão de um carinho, por exemplo) e, entre outros processos de maturação cognitiva e linguística,  percepcionar sons pertencentes à sua língua, aos quais, oportunamente, atribuirá significado.



A audição é portanto um dos sentidos mais importantes para a aquisição da linguagem. Os problemas auditivos manifestam-se em crianças e adultos e afectam cerca de 10% da população mundial. Apresentam diversos graus (leve, moderado, profundo ou severo) e diversas etiologias (ou causas), tais como otites, traumatismos, meningites, rubéola materna, sífilis congénita, citomegalovírus, sarampo, entre outras.



São recorrentes os casos em que os problemas auditivos, principalmente os leves a moderados, passam despercebidos a pais e professores. Assim, estes deverão estar atentos a alguns sinais de alerta como, por exemplo, crianças com otites de repetição, crianças com rouquidão crónica, crianças que falam muito alto, que ouvem televisão com volume aumentado, que apresentam dificuldades escolares, desconcentração e/ou atraso no desenvolvimento da linguagem, bem como crianças que produzem sons da fala distorcidos e/ou trocados (“fela” em vez de “vela” ou “fata” em vez de “faca”, por exemplo).

Uma criança com perda auditiva também passará pela fase do balbucio, no entanto, por não ter o prazer de ouvir os seus próprios sons, bem como os produzidos pelos outros, nomeadamente pela mãe, desmotiva e acaba por se calar,  compromentendo assim o seu desenvolvimento linguístico e articulatório.



A forma mais eficiente de estimular a criança com défice auditivo consiste na activação dos seus restantes sentidos, explorando com ela as pistas multissensoriais que o  meio envolvente lhe oferece, de forma a que possa extrair o máximo de informações acerca de um determinado conceito e assim construir significados mais válidos.

O papel dos pais é, nesta fase, essencial, uma vez que a criança deposita neles toda a sua confiança e empatia. Por conseguinte, a família deverá estar devidamente preparada para a ajudar, contribuindo para a estimulação do resíduo auditivo e assim colmatar eventuais dificuldades, a fim de dar continuidade ao seu desenvolvimento.



Em suma, a audição é de extrema importância quer para a aquisição da linguagem, como para o processo de maturação cognitiva, afectiva e social, pelo que a detecção atempada da perda auditiva torna-se fulcral. Desta forma, o despiste precoce e periódico em otorrinolaringologia e em terapia da fala é imprenscindível. Os programas de rastreio auditivo e linguístico, em crianças na pré-escola e no 1º Ciclo do Ensino Básico, são por isso altamente recomendáveis, prevenindo assim dificuldades na aquisição da fala e no desenvolvimento da linguagem, advindas de problemas auditivos. Este tipo de rastreio permite identificar as perturbações do sistema auditivo e determinar o seu grau, o tipo e o local da lesão, bem como as suas implicações no desenvolvimento da linuagem.



É importante referir que se a criança manifesta sinais de dificuldades auditivas mesmo perante exames audiológicos normais, poderemos estar perante uma dificuldade de processamento auditivo central. Neste caso a criança terá de fazer um exame específico para avaliação destas competências.



Dina Caetano Alves e Tânia Reis


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