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Linguagem ou Fala?



Linguagem e Fala – falaremos da mesma coisa?

As expressões linguagem e fala são com frequência usadas indiferenciadamente. Na verdade, a diferença entre linguagem e fala é substancial.

A fala consiste numa capacidade anatomofisiológica de produzir sons que serão transformados em sons com significado enquanto sons da fala, dado o conhecimento cognitivo-linguístico que possuimos, ou seja, dado o conhecimento da língua que adquirimos.

Por oposição, a linguagem remete para uma competência cognitiva (“cognitiva” não pressupõe “intelectual” mas antes um processo cerebral) que nos fornece informação acerca da língua, ou seja, do sistema cognitivo-linguístico da comunidade à qual pertencemos. Este sistema é adquirido e desenvolvido ao longo da infância, e confere capacidade para organizar, reconhecer e produzir sons com significado no sistema linguístico que integramos com o objectivo de entender e produzir palavras e frases. Para tal, necessitamos de competência fisiológica, ou seja articulatória, a fim de executarmos movimentos fisiológicos adequados à produção de um som-alvo - fala.

Assim, a fala não pressupõe mais do que uma estrutura anatomofisiológica competente, enquanto que a linguagem pressupõe um mecanismo cognitivo complexo. À medida que a criança cresce, este mecanismo vai-se organizando em diferentes “módulos”. Cada um deste módulos é responsável pela aquisição, desenvolvimento e amadurecimento de competências linguísticas diferentes. Por exemplo, a evolução que a criança exibe nos diferentes formatos de frase que vai produzindo, começando por estruturas mais simples como por exemplo “carro menino” para chegar, mais tarde, a um formato como “dá o carro ao menino”, mostra que a criança evoluíu quanto ao seu desempenho sintáctico, ou seja, quanto à capacidade que ela tem para construir frases mais complexas. O mesmo poderá verifica-se em outros módulos. Na verdade, as crianças que apresentam desempenhos linguísticos imaturos, que invalidam produções mais complexas, necessitam de amadurecer e co-articular harmoniosamente os referidos módulos entre si para chegar ao padrão do adulto.

Dada a diferença entre fala e linguagem, é possível e comum que uma criança apresente um bom desempenho na fala (competência anatomofisiológica), mas um mau desempenho na linguagem (competência cognitivo-linguística), ou vice-versa. Desta forma, a criança poderá “articular bem” os sons da fala (diz o som “b”), mas ter dificuldades no pleaneamento e/ou na organização desses sons (nível fonológico) quando tenta dizer uma palavra como “banana” (diz “manana” em vez de “banana”, mas diz “bola”). Da mesma forma, outras crianças poderão não apresentar dificuldades na fala, mas também apresentar limitações na linguagem, nomeadamente na construção de frases (nível sintáctico).

Por estar mais disponível pela via da audição, especialistas e não especialistas conseguem “observar” e avaliar fala. No entanto, a linguagem, mais abragente, nem sempre é de fácil avaliação/observação. Na sua componente expressiva, quer especialistas como não especialistas (com ou sem conhecimento técnico-profissional) conseguem emitir algum juízo sobre a competência da criança. Por outras palavras, é fácil concluirmos que uma criança com 6 anos que diz “carro menino” apresenta dificuldades, ou até algum atraso na produção de frases, bastando para tal deter de algum conhecimento sobre as etapas de aquisição da linguagem. Na vertente compreensiva ou perceptiva da linguagem, o mesmo não acontece. Só especialistas, tais como o terapeuta da fala, conseguirão aceder e avaliar o desempenho da criança nesta modalidade linguística, uma vez que, ao contrário da capacidade de expressão, esta não se “ouve”. A avaliação dste desempenho pressupõe o acesso ao processamento cognitivo que a criança faz da informação linguística recepcionada.

Estas duas vias de processamento da linguagem, a compreenssão e a expressão, ocorrem em duas dimensões linguísticas, nomeadamente a oralidade e a escrita. A linguagem oral implica que a criança consiga dizer e compreender material linguístico, seja ele uma palavra, uma frase ou outro, enquanto que a linguagem escrita remete para a competência da criança no domínio da produção escrita (e não oral) bem como da compreensão de material escrito. Assim, antes de chegarem à literacia (conceito que subentende a extracção de conteúdo informacional a partir de um texto) a criança terá de ter previamente desenvolvido uma competência mais básica que se prende com um mero processo de alfabetização, isto é, converter, para a escrita, unidades do oral e vice-versa, onde a relação oralidade-escrita é essencial.

Em suma, os conceitos fala, linguagem oral e linguagem escrita rementem para competências adquiridas, desenvolvidas e estabelecidas durante a infância e são determinantes para o sucesso das aprendizagens escolares. À semelhança do cuidado que os pais têm em sujeitar as crianças a rastreios anatomofisiológicos (como os visuais, auditivos...), seria importante que a linguagem da criança também fosse rastreada periodicamente, com vista à minimização atempada de alterações observadas e/ou à prevenção de outras, nomeadmente das decorrentes de um mau desenvolvimentos da linguagem, como as dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita, entre elas, a dislexia, frequentemente desencadeada por alterações do processamento do sistema sonoro da língua-alvo (processamento fonológico). Assim, todas as crianças deveriam sujeitar-se a uma avaliação em Terapia da Fala antes da entrada para o 1º ciclo, sendo que, idealmente, deveriam ser avaliadas/observadas periodicamente (anualmente).

Dina Caetano Alves (Terapeuta da Fala e Linguista)


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